Vinte segundos de insanidade:
por que não?
Martha Medeiros
Fui assistir a Compramos Zoológico nem tanto pelo casal protagonista, Matt Damon e Scarlett Johansson, e sim porque gosto muito do trabalho do diretor Cameron Crowe e sabia que ao menos a trilha sonora estaria garantida, nisso ele é craque. O filme não tem a pegada dos trabalhos anteriores dele, mas não foi perda de tempo. É um filme terno, leve, bem família, ao estilo Walt Disney, com todos os elementos que caracterizam esse tipo de produção: órfãos, bichos, romance, uma garotinha que é um encanto e a confortadora previsibilidade protegendo contra qualquer susto.
Além da trilha sonora, que realmente não desapontou, o filme vale pela bela cena final e por uma pequena frase interrogativa que se destaca no roteiro. Mas, antes, a história do filme: um homem na faixa dos 30-40 anos fica viúvo e resolve dar uma mexida na rotina. Ao buscar uma nova casa, acaba adquirindo uma residência abandonada de 18 hectares que abriga um zoológico prestes a ser desativado caso o novo dono da propriedade não invista pesadamente no negócio. Você tem ideia de como se administra um zoológico? Matt Damon também não, e os filhos dele, muito menos. Por que alguém se disponibilizaria para esse fracasso anunciado.
Ao ser questionado sobre a roubada em que se meteu, o personagem de Damon não encontra uma resposta plausível. Só lhe resta devolver a pergunta com outra pergunta: por que não?
É um filme sobre possibilidades nunca antes cogitadas. É sempre mais confortável transitar em terreno conhecido, mas que transformação advém da comodidade? Nenhuma. No filme, o pai ensina para o filho adolescente: há um momento na vida - ou até mais de um - em que é preciso reunir 20 segundos de coragem, sem pensar nas consequências. Bastam 20 segundos para se declarar a alguém sem nenhuma segurança de reciprocidade, ou 20 segundos para dizer a um corretor: fico com essa casa estropiada. Vinte segundos de ousadia, por que não?
Perguntar-se "por que não?" me parece estimulante para começar um novo ano. Exigem tanta explicação para nossas escolhas, tantas teorias e argumentações que justifiquem nossas atitudes, que se toma libertador devolver aos nossos inquisidores um "por que não?”. Qual é o problema de se aventurar? Mesmo os ponderados - dos quais sou representante de turma - reconhecem que chega uma hora em que o convite para arriscar merece ser atendido. O pior que pode acontecer é tudo dar errado. Pior em termos. Dar errado não é tão ruim diante da alternativa de nunca ter tentado.
Eu não compraria um zoológico nem sob a mira de um rifle automático, mas a história aconteceu de verdade e, bem, o resto o filme conta. Se você prefere um cinema mais adulto e palpitante, assista ao ótimo Tudo pelo Poder, que mostra por que os idealismos são tão frágeis nos dias de hoje, mas se o objetivo for diversão, comoção e uma pitada de incentivo para se viver de uma forma menos burocrática, Compramos um Zoológico, por que não?
Domingo, 15 de janeiro de 2012.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.